
Era quase meia noite. Todos estavam virando abóbora quando deram início a sessão de perguntas com Gloria Khalil. Restavam apenas vinte minutos e metade da brava audiência que não resistiu em ir embora. Paciente, Glória respondeu os questionamentos que até nós, mortais que acompanham seu trabalho, estávamos cansados de ouvir. “Como se deu o livro Chic – Um guia de estilo?” ou “E na época da Fiorucci, como era?” eram as mais famosas.
Como Michele Chaves, editora do portal Chic e mediadora da sabatina, abordou, Glória não gosta de olhar para trás. Mirando para o futuro que surgiram melhores perguntas para respostas de primeira. Como quando perguntada sobre o tal “fim da tendência”, bateu na tecla de que o estilo deve substituir a moda, sendo essa apenas uma oferta de mercado. Há quatro temporadas não é possível fazer uma lista de trends que não tenha menos de vinte itens, o que acaba transformando o estilo uma questão de escolha. Tanto que em seus editoriais no Chic tendência é chamada de rumo. Ou seja, atualmente é o consumidor de cara com as inúmeras opções que o mercado sugere. Direcionar-se bem dentro de tantas escolhas é meio caminho andado para a formação do estilo. Afirmação que está diretamente ligada com uma das frases mais icônicas durante a chuva de perguntas: “Se você tiver olho e informação, pode entrar em um magazine e sair bem vestida”. As lojas de departamentos usam o mesmo bureau de estilo, traduzindo para as classes populares o que está acontecendo na moda. Segundo a consultora, funciona muito bem pois é uma forma de educar esse público. Os que podem entrar na Osklen mas tem receio de passar na Renner, C&A ou Riachuelo agora são favorecidos pelo conceito de hi-lo, sugerindo o mix de peças caras e baratas.
Excedendo um pouquinho os vinte minutos, Glória confirmou o que todos já supunham: a brasilidade é um trunfo da hora de internacionalizar uma marca. “Quando você vai para fora e fala que é brasileiro, todo mundo abre um sorriso. Agora fala que você é belga ou eslavo”, brincou. Ao mesmo tempo que é necessário mudar as imagens folclóricas que os gringos tem da moda daqui. “É preciso fazer com a moda o que foi feito com a música brasileira, que é muito respeitada lá fora”, afirmou com veemência. Perder o imutável lado étnico para encontrar um mediano entre a identidade nacional e design cosmopolita soa como a melhor alternativa. Melhor do nossa realidade atual, onde estilistas da terra brasilis desenvolvem produtos como belgas ou eslavos. Entre o cinza europeu e o azul anil do Ordem e Progresso, a sensação que fica é que com Glória é sempre uma aula.
Clarissa Machado