Cheguei esta semana ao Brasil…
Como não podia deixar de ser, minha atenção é voltada para as pessoas, sua imagem, sua cultura. É igualmente inevitável que estabeleça imediatamente um termo de comparação com a Europa, especialmente no que diz respeito à moda e ao estilo…
Evidentemente que tenho que perceber que por questões climatéricas, o Ceará, assim como muitos estados brasileiros onde o clima é ameno ou quente todo o ano, sua moda é condicionada ou adaptada para conforto dos habitantes. Por isso determinadas observações serão postas de parte pela compreensão dos factores mais importantes em que se baseia a vertente criativa de moda brasileira.
Uma das coisas que mais se destacou foi o uso dos short’s e mini short’s, algo que é sazonal na Europa e que rapidamente sai de uso. As blusas (ou camisas e túnicas como nós lhe chamamos), é outra das peças que mais vi usar, mas é bem visível igualmente o uso de vestidos que adoptam as formas mais diversas, padrões, cores e caimentos…
Outra das coisas que para mim foi notória, foi o uso de matérias-primas que muitas vezes contrariam o princípio da roupa leve e fresca, são tecidos e malhas usados na Europa exclusivamente para inverno, ou seja para aquecer. O mais estranho é que este facto foi verificado em marcas cearenses, e que comercializam apenas o seu produto neste estado. Para mim, acho que mostra bem a tentativa de seguir a Europa a nível de design e estilo, mas duma forma estranha, pois a inspiração é levada 100% ao limite e não são feitas muitas vezes as devidas alterações para o mercado onde os produtos estarão à venda.
É do conhecimento geral, que os brasileiros valorizam as marcas europeias e as marcas top em cada segmento de produto, a diferença é que a Europa é munida de inúmeros factores que a diferenciam no Brasil a níveis não apenas geográficos. A meu ver, existe por isso uma certa apatia da minha parte quando vejo “réplicas” de modelos europeus mas sem qualquer modificação de acordo com o público que os consome… é estranho pensar que as empresas mais do que pensar no bem-estar dos seus consumidores valorizam mais a busca do estilo europeu sem a devida reflexão no processo criativo.
A grande diferença e excepção são os criadores brasileiros quer os da velha escola quer os emergentes que buscam um estilo próprio e único que na minha opinião é nessa base que o seu sucesso se torna firme. Sinto uma forte necessidade do consumidor em ter algo novo, original, diferente e exclusivo. É claro que tudo isso tem um preço que na maior parte das vezes este não está disposto a pagar. As colecções de fabricação em série, muitas vezes deixam precisamente o carimbo da repetição bem visível em eventos, festas, boites, restaurantes, onde olhamos à volta e vemos uma enorme quantidade de pessoas usando a mesma peça de roupa.
Cada vez mais a exclusividade se torna urgente e a diferenciação necessária…
Outro factor importante para mim é sem dúvida a modelagem da roupa, sua confecção e acabamento: talvez por serem empresas pequenas, as marcas do ceará a meu ver têm um cuidado dobrado na apresentação da peça independentemente do seu aspecto criativo. As peças apresentam bom acabamento, não existem costuras soltas ou pontas soltas, isso para mim constitui uma mais-valia que pode no futuro tornar-se um troféu para quem não mudará sua estratégia de confecção. É no cuidado com as peças que temos matéria-prima para construir redes de lojas eficazes e quase sem problemas de reclamação por parte dos clientes. Isso no futuro acaba por ser a melhor arma face à concorrência. O cearense tem por isso know-how suficiente para liderar o mercado da mão-de-obra devidamente qualificava devendo apenas apostar na formação específica dos seus funcionários e da sua própria formação, passando assim a compreender todos os processos que ocorrem dentro da sua empresa.
De facto, uma das vertentes mais importantes no sucesso é conhecer todos os processos, quando ocupamos uma posição de chefia numa empresa, e isto não se aplica apenas ao têxtil, mas sim a todos os ramos de negócio.
Vejo de facto bastante potencial face à Europa especialmente pela questão cultural que coloca o brasileiro com mais força simpatia para percorrer novos caminhos com sucesso.
Aconselho por isso uma aposta forte no crescimento das marcas pela diferenciação e não pela cópia de outras marcas ou modelos…ser original coloca-nos numa posição de pouca concorrência e de menos stress no dia-a-dia.
O sucesso muitas vezes depende em primeira instância da nossa atitude face ao mercado, e se temos tudo o necessário para vencer e não vencemos, realmente algo está a falhar e é preciso parar para pensar. Na criação duma estratégia eficaz depende o futuro…
O futuro constrói-se hoje….com muito calor !!!