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Clarissa Machado
Clarissa Machado é uma ex-punk apaixonada por trendhunt pelo simples prazer da cultura de massa. Além de fazer parte da equipe Profissão Moda também edita o blog CaradoAbuso.com
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A dor e a delícia de produzir


Nos últimos tempos, tive a oportunidade de retornar ao mundo da produção de moda. Pegar peças por consignação, esperar gerente falar com dono de loja, levar “nãos”, entupir o carro de sacolas ad infinitum, organizar looks mentalmente e ser ágil na hora das fotos é bem mais cansativo do que me lembrava. Quanto mais trocas de roupa, mais mortos ficamos no fim do dia e nem sempre o resultado final recompensa todo o trabalho. O fotógrafo pode não ser lá essas coisas (sem falar no tratamento), o editor/dono da marca (caso seja campanha) pode inventar coisas absurdas na hora, mudando completamente o que foi combinado.

Briefing é o tipo de lei que todos adoram desrespeitar. O coitado do produtor, inseguro, despreparado para a bipolaridade de quem está em comando, fica doidinho. O pior é que nem todas as mudanças repentinas são para o bem. Muita opinião e pouco conhecimento de moda são os maiores vilões. Pior ainda é quando tem gente do marketing no meio. “Mostrar o produto” é palavra de ordem. A imagem pode não transmitir nada para o público, mas o produto quem que tá alí, gritando na foto. Assim não tem produção que dê jeito. E o que seria uma direção de arte bacana acaba se resumindo a segurar e carregar objetos.

De tanto apanhar dos que te contratam e depois querem fazer seu próprio trabalho, a gente aprende a impor nossa opinião, deixando sempre claro que sabemos o que é melhor para cada situação. Tudo é o modo de falar, esse, quase persuasivo. Um amigo me ensinou o truque do “Mas você não acha?”. Um “Mas você não acha que ficaria melhor de tal forma?” não só te dá 90% de chances da pessoa concordar como também de parecer que a idéia inicial foi dela. Caso ela caia nos 10% descordantes, jogue o “Na minha opinião como profissional” com feições bem imponentes, quase austeras. Duvido que não dê jeito.

Outra desvantagem é conviver diferentes toda vez. Há quem veja isso por um bom prisma, pois gera contatos para futuros trabalhos e assim por diante. Particularmente, sou movida pela necessidade de gerar vínculos ao fazer o que gosto como também trabalhar junto de gente bacana. Soa ingênuo, até porque vou conviver com todo tipo de criatura nesse mundo e não posso tá exigindo que todo mundo tenha atitudes ótimas e esteja de bom-humor 24h por dia. Porém, dá de cara com “chefe” esnobe e que te menospresa não é nada agradável.

Pior são os que não respeitam quem não chega-chegando. Poucos dias atrás fui para uma reunião para definir uma campanha de underwear masculina. Mesmo tendo um conhecimento prévio da marca (pesquisar antes sobre é essencial) levei na calma, para sentir o que todos desejavam. Perguntei, ouvi e, como era de se esperar, não havia muito o que opinar. Se tratava de underwear masculina! E muitas das sacadas podem surgir no caminho, ao longo da busca atrás das peças. Levar óculos, regatas de algodão e calça jeans. E tanto o chapéu panamá como o óleo, camisas de botão e blazers foram rejeitados. Motivo: mostrar o produto. Inspirar-me na capa da última Vogue Hommes para dar um up na campanha foi uma idéia sem sucesso. Jamais sugeriria se não houvesse link com a identidade da marca. Falta de visão e… BOOM! Perde-se mais uma boa imagem. Depois reclamam que falta algo.

Como deu pra notar, produzir é onde mais se aprende em menos tempo. Tudo é regrado por uma série de normas que devem ser seguidas como máximas na vida de um produtor/stylist. O período maxímo de consignação é de 48h, tornando suicídio qualquer trabalho na segunda-feira (para esses, conte sempre com lojas amigas que emprestam coisas sem problema). Em editoriais de revista, o privilégio é dos anunciantes, que para o nosso infortúnio nem sempre tem as melhores escolhas. Aí a criatividade no styling vai ter de falar mais alto. Muitas vezes temos que tirar leite de pedra e fazer milagre com peças de modinha ou vestido de festas infelizes cheios de paetês, por exemplo. Na hora, parece que Murphy ataca e todas as lojas bacanas da cidade parecem não anunciar em canto nenhum.

Uma dúvida que sempre rola é a diferença de produtor e stylist. A maioria acha que é tudo a mesma coisa. Tudo burro de carga que leva-e-trás mercadoria e combina uma roupa com outra. Errado. Produtor cuida do cenário e afins, levando para a locação o que for necessário para complementar tanto o ambiente quanto o trabalho do stylist, que na teoria se restringiria a roupa. Poucas (e boas) são as que fazem questão de contratar stylist, produtor e ainda levar o estilista para acompanhar o nascimento da campanha. Melhor exemplo disso? A Dona Florinda. No site deles você pode ver o videozinho com todos os responsáveis pela geração das imagens, provando que quando que vale à pena investir e ter um trabalho excelente. Voltando ao meu caso, para evitar complicações e não perder oportunidades, acabo me chamando de produtora, mesmo querendo ficar só com o styling. No final, acabo carregando sacola do mesmo jeito. E morrendo de inveja de quem só escreve.



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Comentários

a mais pura verdade!! Bom texto!
Tatiana Moraes   Jun 6, 2010 1:02:40 PM
ex punk? que designasão tosca é essa...
Julie   Mar 4, 2009 2:40:51 PM
Aiii! Falou de Dona Florinda, falou de gente boa, familia, trabalho e muito, muito estudo. Por isso que as coisas dão certo! E depois tem gente que se tranca com qualquer ''segredo'' de marca... Boa leitura, Clarissa, mulher!
Leila Germano   Apr 3, 2009 10:49:32 PM
Seria triste se não fosse cômico! Excelente e o que é pior: a mais pura verdade!
Lia   Nov 12, 2008 11:58:22 PM

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