Como é do conhecimento comum, o mundo atravessa uma crise financeira que não parece ter fim à vista… Mas vejamos: será que o mundo da Moda sofre muito com esta "crise"?
É natural que sim! Afinal todos os sectores saíram lesados nesta revolução económica mundial. O normal e o que é frequentemente relatado é o efeito de bola de neve. O comportamento social em geral é afectado especialmente pela propagação da palavra: uma pessoa fala da "crise" para outra, essa por sua vez fala para mais 2 ou 3 pessoas e sem querer, rapidamente esse sentimento de incerteza e receio pelo futuro financeiro das famílias espalha-se por toda a população. É sobretudo na tentativa de contrariar esse sentimento que as empresas devem apostar se não querem perder a sua fasquia de mercado. Esta crise é na sua maioria Psicológica, estando agregada a interesses políticos e do mercado de acções.
Não sou economista, mas sempre ouvi dizer que "querer é poder", e sinto que se a população quiser superar todas as situações que desagradam no momento vão conseguir!
No ramo têxtil e de moda, não é visível um recuo muito grande nos objectivos das empresas, mas porque será? Isto faz-nos recuar aos princípios mais básicos da indústria. Afinal que necessidade satisfaz a moda? A necessidade mais básica do ser humano que é cobrir o corpo. As tendências já fazem parte do imaginário dos criativos. O homem usa o vestuário para protecção do corpo quer do frio quer do calor, o facto de o vestuário ser elaborado com sentido estético apurado representa acima de tudo a necessidade de diferenciação das marcas quando assumem a sua posição estratégica de mercado. Sem querer as tendências tornaram-se uniformes e generalistas por um só motivo: economia mundial.
O público em geral atribui a criação de tendências a um grupo de criativos com forte sentido estético, mas na verdade esse grupo não existe! As tendências de moda mais do que apelarem à estética apelam ao consumo das matérias-primas em stock que não foram vendidas em colecções passadas. Imaginemos: uma empresa aposta na cor Branco numa colecção de tecidos e produz uma quantidade gigante de toneladas. As vendas não consomem a totalidade do stock desses tecidos…resultado perda de lucro face ao investimento. Agora imagine que 5000 empresas fizeram o mesmo, resultado: Milhões de metros de tecidos parados num armazém aguardando ser vendidos. Numa perspectiva puramente económica, o mercado impõe como tendência o uso da tal cor branca de stocks como forma de dinamização de capital previamente investido. Os stocks vão escoando e com o lucro resultante da venda, as empresas podem voltar a investir capital e a tal "crise" desaparece. O mesmo se pode dizer com as formas: Curtos ou Longos? Justos ou Soltos? Isso mais uma vez obedece ao mesmo ritual: se os stocks forem inferiores ao previsto, as formas serão justas, e se existir excesso de stocks, com certeza será longo e solto! É cruel pensar dessa forma mas mais do que estética o princípio que limita a criatividade é puramente Economicista!
Basicamente o que as empresas têm feito para contrariar as oscilações económicas é voltar aos princípios que referi da necessidade do homem proteger o seu corpo. Os básicos voltaram em força e só as marcas já com um padrão de clientes bastante definido continuam arriscando no que é considerado tendência. A forma mais eficaz de contornar esta situação é estabelecer uma percentagem da colecção de básicos e básicos renovados de 70 a 80% e peças "fashion" de 20 a 30%. Nesta receita de colecção já é possível segurar toda a instabilidade sem investimento desnecessário de capital e sem sofrer de ansiedade nos dias de vendas inferiores ao previsto!
Se analisarmos com precisão tudo isto, é natural dizer que é na compreensão do comportamento do ser humano que reside o segredo das grandes empresas. Em contrapartida, as marcas de luxo continuam crescendo no mercado e as suas vendas ao contrário do que é muitas vezes anunciado, aumentaram nos últimos meses, a única diferença é que encontraram na fusão dos grandes grupos de moda a fórmula de sucesso para atingir o mercado com cada vez mais força. Os extremos quase que se tocam: o mercado "normal" e o mercado de "luxo", ambos possuem os mesmos objectivos: facturação!
Todos pretendem contornar a suposta crise, e é na aposta em classes distintas que o sucesso se verifica. O importante é ficar atento ao público-alvo a que cada um se direcciona…